Em meados da década de 1990, uma notícia vinda da América do Sul abalou os círculos literários mundiais. Jornalistas, acadêmicos, livreiros, ninguém tinha outro assunto: um velho alfarrabista de Buenos Aires – ou seria Bogotá? – havia encontrado, dentro de um antigo volume dos Ensaios Reunidos, de Borges, uma folha escrita à mão pelo próprio autor de Ficções. Era, sem dúvida, um tesouro. Sozinho, o pedaço de papel já seria capaz de alcançar uma cifra considerável no mercado voltado para colecionadores e estudiosos do gênio argentino. Seu conteúdo, porém, prometia ser ainda mais precioso.
Plínio Gouvêa de Castro, o bibliófilo brasileiro, dizia ter examinado o manuscrito. Apostou tratar-se de um poema da fase inicial, quando Borges ainda escrevia nos blocos de folhas cor de laranja roubados do escritório do pai. Crítico reconhecido e um dos fundadores da revista Scriptura, o equatoriano Jaime Gonzalez Mendoza acreditava serem anotações para um romance que, com o avanço da cegueira, o escritor nunca chegou a concluir. Por trás dos inconfundíveis óculos de lentes violeta que reforçavam a intensidade de seus olhos tom de anil, Anna Svensson, da Academia Sueca, surgiu na TV para uma afirmação categórica: a Fundação Nobel estava muito inclinada a conceder, de forma póstuma, o prêmio que fora negado a Borges em vida.
Alheio às discussões dominantes nos círculos intelectuais, Alejandro Fernandes passava por uma grande aflição naquela manhã de abril. Entre os velhos livros espalhados pela loja empoeirada do avô, em Buenos Aires – ou seria Bogotá? –, o menino procurava desesperado por um pedaço de papel. Sabia que escondera por ali o trabalho de escola que Juanita lhe emprestara a contragosto e que ele, depois de copiar tudo, tinha evidente obrigação de devolver.
Alejandro detestava as aulas de gramática com a mesma intensidade com que gostava de Juanita – e isso, aos 8 anos de idade, queria dizer muito. Imagine decepcionar a menina com o sumiço da tarefa escolar. O garoto lembrava de ter enfiado a folha às pressas entre as páginas farelentas de um livro encadernado que trazia, na capa, o mesmo nome da família de sua amada: Borges. Aproveitara para agradecer o empréstimo com um bilhetinho e um convite, escritos às margens do exercício. “Os números são mais interessantes do que as regras do nosso idioma. E também são coloridos, sabia? Depois do 1, que é preto, vem o 2, que é vermelho. O 3 é amarelo; o 4, azul, e o 5, verde. Quer descobrir comigo as cores do 6 ao 9?” Sorriu. Juanita precisava de ajuda em Matemática. Tinha que achar o papel.

